seven years
mirela, jogou as botas para trás e estava feito, nova em folhas no chão. derrubou café com leite no vestido pra ficar mais misturado, pra virar um'outra coisa e rir gozado. escorregou e não caiu em bloco, foi em parte por não se sentir uma só e de resto porque veio junto. olha ela, colocou os cabelos no bolso pra assustar o conteúdo, que já foi castanha, que já foi vermelha, que tinha os fios queimados de sol quando criança e nunca foi maduro. vai com ela, querendo chegar em lugar nenhum, fazendo buraco no chão de tanto correr sem fugir. ouve ela, que canta em si sem lá, pra qualquer um. sente ela, que ainda sacode com vigor seus ombros falidos pra frente. sai de dentro dela e mira bem de perto; mirela.
quem:
ela
um flit paralizante qualquer
o dia entalou na sua garganta, não descia nem a goles d'água. nem a pranayamas, não saía. o dia era feito casca de pipoca quando engasga e prende, não tem jeito d'ir embora.
noutro dia ele descola.
noutro dia ele descola.
noutro dia ele descola.
noutro dia ele descola.
quem:
ela
eye to eye
sua mandíbula se queixava nunca, tinha um jeito estranho de não alcançar. como quem olha sem chegar, um limite marrom claro.
quem:
ela
dirty dancing
vintesseis anos cravados e faz dois dias que lá se foi o patrick, assim se vão um a um, assim se vãos, amontoando falta das coisas e eu to achando isso bonito, ponto. não acabou. dançar é um troço gozado, tava pensando. pra quê mexer tanto assim? não pergunta pra mim, agora mesmo eu não sei dizer. e assopro minhas velas pensando nisso, no embalo, no nonsense, na rua, no movimento que eu não teria como controlar. que venha, que vá - oh, pa!. a foto é do helton e da nicole, não lembro qual dos dois tirou, vaca azul, mú. eu e o paulo, a paula e o paulo, a gente sabia se esforçar. a gente queria e eu olhei pra essa foto e senti certa saudade de querer tanto. agora eu quero menos um pouco. acho que eu comecei a aproveitar.
quem:
eu
por la carretera
o meu amigo, o norton, está em buenos aires. acontece que ele me pediu umas dicas sobre a cidade e eu fui ingrata em não mandar... já fui pra lá três vezes e me senti sem preparo pra isso... de repente porque eu nunca me programei, só comprei a passagem e cheguei lá... compre frutas na esquina, faça amizade com o cara da banca, foi o que eu disse. acho que quanto menos direção ele tiver, mais vai poder se surpreender com a cidade - é difícil que buenos aires não cause isso, aquela cheia de carisma.
daí que eu fui nos meus arquivos e achei uns vídeos que fiz na última viagem, desse ano. tem um pouco dos lugares que eu passei e pouco é muito pouco. de todo jeito, vou postar aqui só pra poder acessar de onde eu estiver, foi mal pela falta de 'carisma' do conteúdo... tem esse peso pra mim. se tiver paciência, divida comigo, aperta o triângulo & play.
daí que eu fui nos meus arquivos e achei uns vídeos que fiz na última viagem, desse ano. tem um pouco dos lugares que eu passei e pouco é muito pouco. de todo jeito, vou postar aqui só pra poder acessar de onde eu estiver, foi mal pela falta de 'carisma' do conteúdo... tem esse peso pra mim. se tiver paciência, divida comigo, aperta o triângulo & play.
quem:
meu
que não deveria se chamar amor
um dia o vini falou: a ana e o lucas, eles sim se gostam de um jeito bonito. amanhã eu vou ser madrinha, madrinha da ana e do lucas, que se gostam de um jeito bonito, atestado pelo cara que eu mais gostei - de um jeito bonito. eu vou usar meu melhor vestido e entrar feliz de poder assinar aquele papel e pedir pra maquiadora um rímel a prova d'água, just in case. existem muitos jeitos de se gostar de um jeito bonito: tem gente que faz isso bem de perto e tem gente que mantém uma distância segura pra não se perder, é assim. mas é tudo a mesma coisa: essa, que arrebata a gente com ternura. essa, que não dá pra chamar pelo nome que não possui; que a gente vai dar sentido dizendo amém e tomando um porre, porque deus, meu bem, também se diverte um pouco. às alianças e às distâncias, cada gole que vier. amanhã.
quem:
meu
jack daniels
mais um, o bom moço: olá...
...o bêbado: se você nunca dormiu num banheiro de um bar vagabundo
eu: oi, tudo bom?
o bom moço: tudo. vem cá, você tá sozinha?
...o bêbado: se você nunca amou alguém que um dia foi embora
eu: to, sim.
o bom moço: não pode!
...o bêbado: se você nunca teve um dia de cão
eu: sim.
...o bêbado: se nunca bebeu pra fugir da solidão
o bom moço: não...
eu: ahã.
...o bêbado: se a tua vida sempre foi assim como uma linha reta
o bom moço: mas como?
eu: cara, to sozinha e to bem aqui, ok?
o bom moço: ah, disso eu duvido, ninguém fica bem sozinho.
...o bêbado: se você sempre fez amor com a pessoa certa
eu: quer saber, você tem razão. ta vendo aquele cara, ali... o bêbado, acendendo o cigarro?
...o bêbado: se você só tomou um gole de gim e nunca bebeu a garrafa até o fim
o bom moço: no microfone?
eu: é... ele. com ele que eu to, cara. valeu!
...o bêbado, ao vivo e ardendo: você nunca vai saber
nunca vai entender o que é o blues.
...o bêbado: se você nunca dormiu num banheiro de um bar vagabundo
eu: oi, tudo bom?
o bom moço: tudo. vem cá, você tá sozinha?
...o bêbado: se você nunca amou alguém que um dia foi embora
eu: to, sim.
o bom moço: não pode!
...o bêbado: se você nunca teve um dia de cão
eu: sim.
...o bêbado: se nunca bebeu pra fugir da solidão
o bom moço: não...
eu: ahã.
...o bêbado: se a tua vida sempre foi assim como uma linha reta
o bom moço: mas como?
eu: cara, to sozinha e to bem aqui, ok?
o bom moço: ah, disso eu duvido, ninguém fica bem sozinho.
...o bêbado: se você sempre fez amor com a pessoa certa
eu: quer saber, você tem razão. ta vendo aquele cara, ali... o bêbado, acendendo o cigarro?
...o bêbado: se você só tomou um gole de gim e nunca bebeu a garrafa até o fim
o bom moço: no microfone?
eu: é... ele. com ele que eu to, cara. valeu!
...o bêbado, ao vivo e ardendo: você nunca vai saber
nunca vai entender o que é o blues.
quem:
eu
drink sangria in the park
parecia que eu tava indo pra piscina, o meio do caminho é o melhor lugar, o chegar-lá. o vento fresco tocava uma balada no meu cabelo e mesmo sentada eu via o mundo ficando pra trás, feito tudo que passa um dia, só que rápido; eu mesma não mexia - a não ser os pelos tentando não me perder da humidade - e o tanto de lugar atravessando o meu caminho, eu não parava de sentir e sei que isso já não é novo para mim. o sol encostou no meu braço como quem me guia pr'um dia bom. do resto eu não me lembro, com força. era quinta, era cedo e eu tava indo pra piscina, me parecia.
quem:
eu
apocalipse, 9: 6
tava vindo do bar e diminuí a velocidade, oh, yeah, peguei o caminho mais longo dessa vez, foi bem assim. tava sabendo qu'eu podia passar o resto da vida voltando do bar, guiando de noite; pensei que se cada um tem seu paraíso, o meu podia ser dentro do carro, com os bêbados ainda no meu ouvido: taí, deus, se eu mereço, dizem que sim. dizem que não. tenho que acordar amanhã cedo, falta pouco pr'eu acordar e to aqui, oh, no, vendendo a minha alma ao blues. queria continuar nessa noite adentro, debaixo desse chuvisco, com o blues dos bêbados guardado no meu ouvido. e está. e estamos. o dia vem daqui a pouco e não tem jeito de não ser. e não quero nem saber, eu ainda escuto. eis o mistério da minha salvação, amém.
quem:
eu
lost in translation
me embebedei no shoyu, so you
na textura macia da sua carne salmão, so cru
te pego sem jeito, entre as duas pernas que tenho nas mãos
e te trago em saquê, sou su, tu, ah!
na textura macia da sua carne salmão, so cru
te pego sem jeito, entre as duas pernas que tenho nas mãos
e te trago em saquê, sou su, tu, ah!
quem:
ela
o inferno são os outros
o segurança não deixou criança entrar, sartre só para gigantes.
o amigo: ele disse que a gente não pode entrar lá dentro.
o que vai ter, por que a gente não pode assistir?
mateus: eu descobri o que é:
é porque a gente ri.
o amigo: ele disse que a gente não pode entrar lá dentro.
o que vai ter, por que a gente não pode assistir?
mateus: eu descobri o que é:
é porque a gente ri.
quem:
eu
bingo!
o menino mateus ajudou no parto do bezerro, malhado como a sua aposta dizia, era só esperar pra tomar o refrigerante. exausto, entrou pra casa, tomou banho gelado no dia mais frio do ano e sentou na frente da televisão, quando foi que nós entramos para acompanhar, covardes da água e exaustas também nos nossos motivos. no programa os animais, seus predadores e o apresentador, que não deixava em paz os pobres selvagens. foi quando a sucuri começou a enrolar no seu pescoço e as risadas de mateus explodiram para o rosto.
eu: mateus, quem é o predador da sucuri?
ele: ah...
o predador da sucuri...
você pode saber...
é a morte mesmo!
nocauteadas, fomos dormir cobertas de alívio, com a certeza de que a gente sabe é de porra nenhuma, angelitas.
eu: mateus, quem é o predador da sucuri?
ele: ah...
o predador da sucuri...
você pode saber...
é a morte mesmo!
nocauteadas, fomos dormir cobertas de alívio, com a certeza de que a gente sabe é de porra nenhuma, angelitas.
quem:
eu
conjutivite
tá ventando pra cacete. fechar a porta de vez quer dizer dormir sufocada e abrir um pouquino só é não conseguir dormir com o barulho do vento tentando entrar. em montevidéo a ventania não dava trégua, o cabelo ficava de pé de sair na rua e o pé não podia sair dela porque eu tava procurando um jeito de ir embora, o único jeito: achar um banco, fazer ele cuspir dinheiro na minha mão, pagar meu hostel e pegar um ônibus pra voltar pra casa. enquanto isso não acontecia, eu descansava o meu único olho que prestava em paradas por lugares que eu não faria. el curioso caso de benjamim button: eu sentei na beira da escada e esperei os quarenta minutos que faltavam para eu passar as próximas três horas, observando os vendedores de pipoca e respondendo uma ou outra pergunta que eles me faziam. as pessoas são marrons em montevidéo. gentis e marrons e o vento tem a ver com isso e eu nunca pude explicar direito. acontece que eu ganhei o dom de olhar nos olhos de alguém e saber: eu sei de onde você vem, você vem de montevidéo. no segundo dia eu me esforcei um pouco mais pra entrar no centenário. o segurança, um senhor de bastante idade me acompanhou em todo o caminho, contando as histórias de lá e de cá, tentando justificar porque o uruguai não consegue mais se erguer no futebol. no final ele me deixou na porta de saída, me abraçou com paixão e só não me beijou a testa porque eu disse isso aqui é contagioso; depois na padaria eu sentei pra tomar um capuccino frio e me arrepender dos doces que não eram bons. o vento varre aquela cidade, sem cansaço, e não existe permanência possível assim; ele levanta tudo e leva as coisas embora, traz outras que não vão ficar: acontece que tudo me pareceu arruinado. todas as pessoas marrons me parecem uma, daquelas pessoas segurando com força a alma do vento, e gentis daquilo que sobra quando você não tem chance. daquilo que eu não esqueço e não sei dizer o que é e de algum jeito deixou meus ossos um pouco mais pesados, o meu pesar eu digo, passa por aí. desde montevidéo não há uma janela que eu não abra, uma porta fechada que não me sufoque e por isso tá foda relaxar. por que é que eu não abro logo essa porta? o que diabos é tão importante que eu não posso deixar o vento varrer? do que é que eu não consigo soltar? me diz, de que cor eu to agora?
quem:
eu
ana paula, do mato grosso.
que eles encrencam em me chamar de ana paula. é só paula, e do regina eu só quero o rainha, pra não ficar pequeno e pronto, mas que merda é isso tudo, é paula. do sul, porra. língua do pê. mas quer saber, nem dá nada não. passei os últimos dez dias em pernambuco, trabalhando num documentário sobre a turnê do ginga pelo brasil. caruaru disse, belo jardim disse, arcoverde falou, triunfo confirmou e petrolina não deu pra trás: apesar do tanto de gente já avisada que era do sul, do sul, puta merda, adoraram o espetáculo do mato grosso. e faz alguma diferença? me parece que não. mas tem gente que eu acho que tem obrigação de falar direito, os jornalistas... com ou sem diploma, não tem certificado pra competência. daí cheguei em casa e hoje eu abri a piauí, tava lá a minha carta publicada, da encrenqueira. rá! pros amigos de bauru, que me reconhecem pelos gritos "do sul!!!", a minha glória mais fajuta:
http://www.revistapiaui.com.br/edicao_34/julho/cartas.aspx
http://www.revistapiaui.com.br/edicao_34/julho/cartas.aspx
quem:
meu
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